Pé Na Escola | Educação Política Criativa | Redação vestibular UNESP 2017
19 de janeiro, no vestibular da UNESP de 2017, os candidatos fizeram uma redação sobre “A riqueza de poucos beneficia a sociedade inteira?”
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Redação do vestibular da UNESP e a complexidade do pensar em nosso tempo

Redação do vestibular da UNESP e a complexidade do pensar em nosso tempo

Em 19 de janeiro, aconteceu o segundo dia de provas de segunda fase do vestibular da UNESP de 2017, em que os candidatos responderam a questões discursivas de “linguagens” e fizeram uma redação. O tema da redação foi “A riqueza de poucos beneficia a sociedade inteira?”

 

Tomando contato apenas com essa apresentação do tema da redação, é possível pensar que os avaliadores esperassem apenas que os candidatos dissertassem sobre a questão da desigualdade econômica, o que é certamente um tema caro à sociedade atual, mas tomada assim, em termos genéricos, possibilita uma crítica apaixonada, de quem considera a desigualdade de riqueza injusta e diz que deve ser combatida; ou então uma defesa também apaixonada, de quem considera a existência de desigualdade do nosso sistema econômico como inexorável e defende que se busque, então, a riqueza e a realização de boas ações e inovações.

 

No entanto, ao ler a coletânea de textos de apoio, vemos que a exigência da prova era muito maior do que essa. No primeiro texto da coletânea, o candidato encontrava a legítima dúvida de Thomas Piketty, expressa em sua obra O capital no século XXI:

 

“Será que a dinâmica de acumulação do capital privado conduz de modo inevitável a uma concentração cada vez maior da riqueza e do poder em poucas mãos, como acreditava Karl Marx no século XIX? Ou será que as forças equilibradoras do crescimento, da concorrência e do progresso tecnológico levam espontaneamente a uma redução da desigualdade e a uma organização harmoniosa da sociedade, como pensava Simon Kuznets no século XX?”

 

Nos textos seguintes, primeiro, Zygmunt Bauman critica baseado em dados da desigualdade o que chama de “uma das justificativas morais básicas para a economia de livre mercado”, que seria a de que a busca pelo lucro individual forneceria a melhor alternativa para a busca do bem comum; e, em seguida, Hélio Schwartsman aponta que se, de um lado, a desigualdade é estrutural para o funcionamento dos mecanismos de mercado, por outro, são esses mecanismos que permitem uma grande melhoria nas condições materiais de vida da humanidade.

 

Assim, a prova apresentava subsídios para tanto a defesa de que “sim, a riqueza de poucos beneficia a sociedade inteira”, ou “não, a riqueza de poucos não beneficia a sociedade inteira”. No entanto, tanto uma como outra posição não poderia ignorar o que fora apresentado na coletânea: as implicações do desenvolvimento do capitalismo no progresso tecnológico e também no avanço da desigualdade e da pobreza no mundo.

 

Essa forma de pensar requerida pela prova de redação do vestibular da UNESP foi por alguns considerada “difícil”, no entanto entendemos que o desenvolvimento de pensamento complexo e ponderado é uma exigência de nosso tempo e, portanto, de nossa educação.

 

É preciso que nossas escolas sejam capazes de formar estudantes não para que tenham as respostas definitivas, mas para que façam perguntas relevantes como a feita por Thomas Piketty e o vestibular da UNESP, e busquem suas respostas considerando a realidade, o debate público e a tradição do pensamento, em sua grande complexidade.

 

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