Pé Na Escola | Educação Política Criativa | Educação libertadora: o que torna um estudante livre?
Livros, pessoas e saberes neutros ou perfeitos não são libertadores. Libertadora é uma educação com livros, pessoas e saberes plurais.
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Para mães e pais: o que torna um estudante livre?

Para mães e pais: o que torna um estudante livre?

Livros, pessoas e saberes neutros ou perfeitos não são libertadores. Libertadora é uma educação com livros, pessoas e saberes plurais.

No Pé na Escola, trabalhamos com “educação política criativa”. Talvez por isso mais de uma vez tenhamos sido procurados por mães e pais, de diferentes posições políticas, preocupados com o que professores estão dizendo para seus filhos em sala de aula. Deveriam “limitar-se ao conteúdo curricular” em vez de “dar opiniões não solicitadas”, nos disseram. Estão preocupados com a liberdade de seus filhos. Trata-se de uma preocupação correta que tem se apoiado em respostas equivocadas. Se queremos jovens mais livres, precisamos oferecer-lhes mais referências e espaços de diálogo, não menos.

Uma proposta de censurar professores ganha forças

Tem ganhado força no Brasil um discurso segundo o qual os estudantes brasileiros estariam recebendo uma formação “ideológica”. Diz-se que o professor deveria se restringir a transmitir conteúdos neutros, sem dar opiniões que contradigam as das famílias dos estudantes.

A premissa dessas ideias é que existe uma verdade neutra, perfeita, e é dela que o professor precisa falar. Essa é uma visão ultrapassada das ciências, mesmo as mais “exatas”, mas, ainda assim, há quem defenda que tudo o que ultrapasse essa pretensa verdade caracterize abuso.

 

Será que alguém sinceramente acredita que a solução para os problemas da educação no país passe por encurralar professores?

 

A solução apresentada para esse mal é a criminalização da expressão dos professores, que passariam a ser controlados por alunos e seus familiares por meio de denúncias anônimas. Há, até mesmo, na internet, modelos de “notificação extrajudicial” por meio da qual pais e mães ameaçam professores de processá-los por crime de opinião. Juridicamente, essas ameaças não se sustentam, mas o que sente um professor que é ameaçado anonimamente pelos responsáveis por seus alunos por suas “opiniões”, inclusive aquelas com respaldo científico e legal, mas que, por alguma razão, desagradam a família do aluno? Medo é o mínimo que esse professor sente. Soma-se a isso a desvalorização com a qual a profissão já sofre no Brasil e temos um saldo de professores desolados, revoltados e desautorizados dentro e fora da sala de aula. Será que alguém sinceramente acredita que a solução para os problemas da educação no país passe por encurralar professores?

Mas se a ameaça e a criminalização não são caminhos, como pensar numa educação para a liberdade? Como evitar a doutrinação?

Primeiro, é preciso pensar sobre o que é liberdade.

O que é liberdade?

Imagine, leitor, a seguinte situação: você está diante de uma porta imensa. Sobre o batente, você lê a palavra “Liberdade”. Você, sozinho, abre essa porta, pesada, e dá de cara com uma imensa, maravilhosa biblioteca. Você vê milhares de livros de todos os tipos organizados em estantes monumentais, com escadarias e tapetes por todos os lados. Você anda pela biblioteca, sente o cheiro de centenas de anos, sobe suas escadas. Decide pegar um livro, de capa dura. Ao abri-lo, no entanto, dá de cara com uma página em branco. Você vira essa página, e vê outra página em branco. Folheia o livro rapidamente e percebe que todas as páginas estão brancas. Vazias. Nenhuma palavra escrita. Você tira mais um livro da estante: nenhuma letra. Corre para o outro lado da biblioteca, arranca os livros de seus lugares, joga tudo no chão, e vê centenas, milhares de páginas em branco. Nada, nenhuma história contada, nenhuma fotografia, nenhum poema, nenhuma ideia, nenhuma convicção. Nenhum erro. Nenhum sinal de humanidade.

O que você sente?

Essa sensação tem algo a ver com liberdade?

Às vezes a gente imagina a liberdade como algo parecido com viver sozinho na lua ou em Marte, sem ter que dar satisfação a ninguém, sem contas a pagar, sem condicionamentos históricos, sem restrições materiais, sem medo de ofender as pessoas, sem ser roubado. Especialmente, sem ter que lidar com pessoas e ideias que nos deixem desconfortáveis, que nos pareçam falsas, perigosas, novas ou velhas. Que, enfim, nos exponham ao risco da transformação. Queremos só conviver com quem amamos e com quem concordamos. A gente chega a imaginar a liberdade como o contrário de política: o eu que não precisa se importar com mais nada nem ninguém além de mim mesmo e meus iguais.

Nesse sentido, a política aparece como o contrário de liberdade, um fardo que carregamos e que nos obriga a gastar tempo e energia para cuidar do Brasil, da nossa cidade, do nosso bairro, das baleias, da economia; das crianças dos outros, das outras mulheres, dos idosos que não conhecemos em vez de simplesmente cuidar da nossa própria vida e família.

Não parece tentador começar a vida do zero, como um livro em branco?

Será que um estudante livre é aquele que tem acesso à informação crua, ilesa à personalidade e experiência de quem informa? Será que esse tipo de informação, “pura”, existe?

Essa era uma ideia corrente que se tinha sobre a liberdade durante na primeira metade do século passado. No entanto, a 2ª Guerra Mundial e o totalitarismo mostraram que algo na nossa humanidade havia entrado em colapso, e uma pensadora alemã chamada Hannah Arendt questionou essa velha ideia de liberdade.

 

Em palavras mais simples: ser livre é ser capaz de mudar o mundo.

 

A autora decidiu buscar as raízes da palavra, na Grécia Antiga, e descobriu que liberdade, originalmente, só era possível no ambiente da política. Segundo Arendt, a ideia de liberdade identificava-se com a ideia de começo, ou espontaneidade, e se exercia necessariamente nos espaços compartilhados entre pessoas diferentes, ou seja, fora de casa: na cidade, na rua, no Congresso. Liberdade seria uma capacidade de começar algo novo, de desencadear um processo, de quebrar uma corrente nesses espaços. Em palavras mais simples: ser livre é ser capaz de mudar o mundo.

Mas mudar o mundo como, se fugimos dele?

Como educar para a liberdade se escondemos dos nossos filhos tudo aquilo com o que não concordamos e não gostamos?

Uma educação libertadora

A educação tinha um papel importante para Hannah Arendt, porque ela entendia que era preciso conhecer e, principalmente, se sentir em casa no mundo para conseguir transformá-lo. E esse é um dos papeis da educação: revelar e acolher a gente no mundo para que a gente se sinta livre nele.

 

A liberdade, nesse sentido político, depende de que a gente conheça e se sinta em casa no meio das belezas, horrores e contradições humanas, num espectro muito mais amplo do que o familiar. E para isso a escola é importante: para ampliar nosso mundo para além da nossa própria família.

 

É claro que nunca vamos nos sentir à vontade no mundo como nos sentimos na nossa casa, e é por isso que cuidar da vida privada e das nossas relações com as pessoas e ideias que amamos é fundamental. A criança, especialmente, precisa desse espaço de proteção. Mas a liberdade, nesse sentido político, depende de que a gente conheça e se sinta em casa no meio das belezas, horrores e contradições humanas, num espectro muito mais amplo do que o familiar. E para isso a escola é importante: para ampliar nosso mundo para além da nossa própria família. É função da escola acolher pessoas com experiências pessoais e familiares diferentes, promover encontros e ensinar os valores do respeito e da democracia.

É importante não perder esse desejo das famílias de contribuir para uma educação que liberte seus filhos. Mas quanto maior a idade dos filhos mais importante notar que muitas vezes é sinal liberdade intelectual a capacidade dos jovens de questionar o que os adultos dizem em casa com base no que ouviram na escola e vice-versa. Assim, educar para a liberdade é também permitir que os filhos aprendam com seus professores. Lembremos também que há a televisão, a internet, as bibliotecas públicas, as ruas, os amigos. Ou seja, professores e familiares estão longe de ser as únicas mediações entre jovens e o mundo. E isso é bom.

 

Conversar mais com os filhos ao invés de tentar calar os professores é a melhor estratégia.  O contrário de doutrinação é uma educação que revele que é impossível uma pessoa ou doutrina, sozinha, dar conta de explicar o mundo.

 

Mas não é preciso tampouco que os pais se calem, pelo contrário. É importante abrir novos canais de diálogo, em casa e na escola, para que os jovens se sintam acolhidos para contar sobre o que têm aprendido, inclusive para adultos que possam apoiá-los e oferecer referências. Que tal os adultos, pais e professores, participarem desses canais ouvindo e expondo suas posições de maneira franca e respeitosa? Conversar mais com os filhos ao invés de tentar calar os professores é a melhor estratégia. Os adultos, pais e professores, precisam exercitar com filhos e estudantes a arte de fazer boas perguntas. Nisso o Pé na Escola pode ajudar, existimos para isso. E por isso somos contra a censura em sala de aula. O contrário de doutrinação é uma educação que revele que é impossível uma pessoa ou doutrina, sozinha, dar conta de explicar o mundo.

O gosto da liberdade

Voltemos à imagem da biblioteca mas, dessa vez, os livros não estão em branco.

Você pega o primeiro livro e há desenhos feitos em 1500 d.C com projeções de como se pensava que seria um mapa do Universo. Ao lado, há um livro de poemas escritos numa língua que não existe mais. Você encontra romances maravilhosos e outros nem tanto. Subindo uma das escadas, há um computador com acesso à internet. No teto, há uma projeção das estrelas do Universo. Por todos os lados há portas e janelas abertas. Você encontra uma estante com mais de mil livros de História escritos por pessoas nascidas em anos diferentes, em diferentes partes do planeta, com diferentes experiências de vida e muitas visões sobre o mundo. Há uma sala com desenhos do corpo humano, representações de corpos de jacaré, urso, tigre. Você encontra um microscópio. Binóculos em frente a uma janela. Um telescópio apontando para Marte. Entre os livros, há um piano e tapetes tecidos a mão. Há um livro enorme com mitos africanos. Entre todas essas coisas, há pessoas, chamadas de professores.

Esses professores conhecem aquela biblioteca. Um deles já leu quase 5% dos livros de História da estante, o que é muito para um único ser humano. Ele te empresta o seu preferido, de capa verde. Outro, sabe tocar belas músicas no piano, e se dispõe a te ajudar a aprender. Ele te ensina a sua canção preferida, que sua mãe cantarolava antes dele dormir quando ele ainda era criança e vivia em outro país. Mais perto do laboratório, uma professora apaixonada pelos dentes dos bichos te conta a diferença entre o hálito da cobra e do cachorro. Ela não gosta de cachorros, acha eles “humanos demais”. Embora você não tenha solicitado nenhuma daquelas opiniões, eles as oferecem, por amor a você e à biblioteca.

Além dos professores, há outras pessoas curiosas e recém chegadas. São outros alunos. Um se aproxima e comenta sobre o tamanduá bandeira, uma professora não o conhecia e se interessa. A mãe desse aluno aparece no dia seguinte e fala também da anta, da arara vermelha, do pacu, do piraputanga e de outros bichos que habitam sua terra natal. A professora encontra um livro que fala desses animais. Você se encanta com a onça, acha um caderno em branco numa gaveta, uma caneta e, com a ajuda de um professor que gosta de poemas, escreve versos que ninguém nunca havia escrito sobre o bicho. Você coloca o caderninho numa estante bonita e, com esse pequeno gesto, muda toda a biblioteca para sempre.

Você sente um gosto de algo feliz. O nome disso, sim, é liberdade.

 

Renata Ferraz, cofundadora do Pé na Escola

3 Comentários
  • Antonio Teixeira de Araújo

    24 de junho de 2016 Responder

    Excelente texto!
    Parabéns ao autor!

  • Fernando José de Almeida

    3 de julho de 2016 Responder

    Vanessa e companhia,
    este texto de v. vem num momento completamente oportuno da história da educação e no momento que passamos.
    Gostarei muito de poder participar e colaborar com o Pé na Escola.
    como?
    vamos conversar e criar um espaço de trabalho mais ampliado em nossa rede.
    abraços
    fernando almeida

    • admin

      4 de julho de 2016 Responder

      Olá, Fernando!

      Vamos conversar sim, um prazer!

      Abraços.

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