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O que é pluralidade? – E o que isso tem a ver com a educação…

O que é pluralidade? – E o que isso tem a ver com a educação…

Nesses tempos, tem se falado muito da necessidade de evitarmos a doutrinação nas escolas. Evitar a doutrinação, de qualquer tipo, é fundamental. Para isso, afinal, serve a educação: para que nós sejamos mais livres e autônomos. Com esse argumento, no entanto, há quem diga que os professores e os livros precisam ser “neutros”, obrigando-os a expor cada conteúdo sob “todos” os pontos de vista. O fundamento estaria no princípio constitucional do “pluralismo” de visões na educação. Mas pluralismo não tem nada a ver com uma só pessoa apresentando todas as visões sobre alguma coisa…

 

Eu – primeira pessoa do singular

O aforismo “conhece-te a ti mesmo” tem origens remotíssimas. Na Grécia Antiga, Sócrates já dizia que se tratava de uma sabedoria remota. Por trás dessa frase tão poderosa, capaz de sobreviver a milênios, está a compreensão de que a Verdade sempre se revela a uma pessoa a partir de sua própria existência concreta. Portanto, todo mortal tem uma apreensão necessariamente relativa e limitada da realidade, que aparece de maneira única para cada um. E daí nascem muitas perplexidades filosóficas: como saber o que é verdade? Tudo então é relativo? Será que somos capazes de viver juntos e nos entender?

 

A apreensão da realidade é melhorada com a existência de outros seres humanos e de objetos e códigos comuns que viabilizam a nossa comunicação, para que cada um perceba o mundo também a partir do que dizem outras pessoas.

 

Bom, o real se apresenta a cada ser humano de uma maneira única, por meio dos sentidos. Mas o ser humano descobriu uma forma de compartilhar o que sente: a comunicação. Assim, aquilo que compartilhamos exerce um papel de sexto sentido: temos a audição, o tato, o olfato, o paladar, a visão e os outros – que compartilham conosco suas descobertas, nos mostram fotografias, escrevem livros, contam histórias, nos ensinam códigos, saberes práticos etc. A apreensão da realidade é, então, melhorada com a existência de outros seres humanos e de objetos e códigos comuns que viabilizam a nossa comunicação, para que cada um perceba o mundo também a partir do que dizem outras pessoas. E isso não exclui o uso dos sentidos, é preciso exercitar os ouvidos, os olhos, a boca para compreender melhor o mundo… mesmo quando ouvimos as histórias dos outros, as ouvimos a partir de nós mesmos.

Esses sentidos individuais, vinculados ao corpo de cada um, tornam a experiência de cada pessoa no mundo absolutamente singular. A singularidade da vida de cada ser humano é inerente a todas as pessoas, e não tem só a ver com uma ideia recorrente de personalidade, que diz que temos essas ou aquelas caracteristicas. Somos singulares também na medida em que, de cada nascimento, é possível contar uma história diferente. Assim, nossas singularidades têm também uma dimensão política importante: antes de nós mesmos conseguirmos falar, já é possível falar sobre a gente, a partir de palavras, histórias, pessoas que chegaram ao mundo antes de existirmos e que são diferentes de nós.

 

O singular na educação

 

Para a educação é importante saber que nossas singularidades precisam ser protegidas, principalmente na infância. A existência de uma criança é ainda muito frágil diante do mundo. Por isso, é importante que a criança que acaba de chegar ao mundo seja protegida por uma família e pessoas que a amem. No ambiente familiar existe uma menor diversidade de experiências e visões de mundo. Esse ambiente reduzido é importante para a criança desenvolver suas singularidades e se fortalecer. É muito importante nos sentirmos em casa junto a nossa família para que, quando estivermos maiores e mais fortalecidos, a gente consiga se sentir em casa no mundo.

A escola, então, representa um ambiente intermediário, menos familiar que a casa e menos imenso do que o mundo. É importante, por isso, que a escola acolha as singularidades de todas as crianças, que certamente nasceram em famílias diferentes e têm pontos de vista singulares diante da realidade. É importante, por exemplo, acolher a singularidade de uma criança que nasceu com algum tipo de deficiência física, que nasceu em outro país, que seja de uma ou outra religião… A escola é, aqui, parceira da família e de instituições de assistência e proteção da infância, que podem ajudar a escola orientando sobre como acolher aquela criança de acordo com suas necessidades e potenciais específicos. A escola é, portanto, um espaço importante de acolhimento e proteção do que cada um tem de único.

 

Eu sou única porque nós somos plurais

 

Por outro lado, só somos todos singulares porque juntos somos plurais. Revelamos a nossa singularidade ao aparecer diante dos outros. Se cada um conhece o mundo a partir de si mesmo, a realidade não pode ser possuída por ninguém sozinho, já que ela está entre nós. A existência de linguagem, valores como bem e mal, certo ou errado pressupõem o compartilhamento de objetos e códigos comuns entre as pessoas. Assim, singularidade e pluralidade são duas faces de uma mesma moeda, que representa o valor dos seres humanos que vivem juntos, em comunidade. Neste ponto, a escola tem um papel central: precisa ser um espaço revelador da nossa pluralidade.

 

Educação e pluralidade

Descobrimos a pluralidade quando ficamos diante de muitas pessoas singulares. É preciso ensinar que o mundo é imenso e que temos muito a aprender com os outros, a partir de nossos sentidos. Aqui, os pais podem ser parceiros da escola: instigando a curiosidade sobre o que não se conhece, servindo de exemplo de respeito e cidadania, criticando com calma e bons argumentos aquilo com que não concordam, assumindo uma postura aberta e propositiva diante dos desafios do mundo. É preciso proteger o que temos de único ao mesmo tempo em que ensinamos e aprendemos a conviver.

O ponto da pluralidade é essencial, portanto, para a educação. Para o educador norte-americano John Dewey comunicação e educação eram, inclusive, sinônimos! Educar significa revelar a nossa pluralidade, expressa por meio de conversas, aulas, filmes, livros, trabalhos acadêmicos, canções, receitas, brincadeiras com outras pessoas – todas singulares…

 

O professor será sempre singular. Já as ciências são saberes construídos de forma coletiva, ao longo do tempo, por pessoas que compartilham o que experimentam através dos sentidos por meio de linguagens compartilhadas, capazes de organizar e construir conhecimentos complexos.

 

Assim, o professor será sempre singular. Já as ciências são saberes construídos de forma coletiva, ao longo do tempo, por pessoas que compartilham o que experimentam através dos sentidos por meio de linguagens compartilhadas, capazes de organizar e construir conhecimentos complexos. Nesse sentido, a física e a matemática representam um conjunto de saberes que atravessaram mares e séculos, daí que sejam tão reveladoras da realidade. Da mesma forma, as línguas humanas também são criações da nossa pluralidade. Cada palavra traz em si um sem fim de histórias e sentidos compartilhados. Tanto as ciências como as línguas não são dados, são vivas! Esperar que um professor (ou livro) seja neutro ou apresente todos os pontos de vista a respeito do que quer que seja é subestimar tanto a pluralidade humana como a própria realidade.

Imagine: seria possível que algum humano falasse todas as línguas, de todos os tempos, a partir de todos os lugares, percebendo todos os valores, a respeito de todas as coisas?

Todo professor é, tão somente, uma pessoa. E não há ciência ou palavra que sobreviva sem pessoas.

 

E agora?

Isso não significa que atender ao princípio do pluralismo de ideias na educação seja impossível, pelo contrário. Uma melhor formação do professor, por exemplo, é capaz de expandir seu repertório. A cultura e a ciência são essencialmente plurais, assim como a educação, de modo que falar em educação de qualidade deveria ser sinônimo de defender o pluralismo. Nesse sentido, bons textos e bons professores se valem de saberes que embora não sejam neutros ou capazes de revelar toda a verdade sobre alguma coisa, são reconhecidos como válidos para uma comunidade ampla de pessoas, permitindo que o estudante acesse conteúdos que podem ajudá-lo a compreender aspectos importantes da realidade.

 

É um erro conceitual buscar a expressão da pluralidade numa única pessoa. Cada um só conhece o mundo a partir de si mesmo. E pluralismo precisa de pessoas, no plural.

 

Por outro lado, é importante dizer que mesmo o professor mais bem formado, com muitas leituras, aulas, andanças pelo mundo e peças de teatro no currículo, vai ser sempre, e talvez cada vez mais, singular. Único e insubstituível. Cheio de opiniões, paixões e vivências próprias. E a defesa da pluralidade passa pela defesa do direito desse professor de ser ele mesmo e se expressar. É, portanto, um erro conceitual buscar a expressão da pluralidade numa única pessoa. Cada um só conhece o mundo a partir de si mesmo. E pluralismo precisa de pessoas, no plural.

Se a pluralidade não existe sem pessoas singulares, ela só revela seu potencial criativo e educativo, sempre relativo, nos encontros. E, aqui, nossas escolas ainda fazem muito pouco. Que tal mais bibliotecas, novas formas escolares que permitam mais diálogo, mais espaço de fala para os alunos, mais criatividade, mais cultura, mais liberdade de expressão, mais pesquisas científicas, mais internet, mais crítica e debate público, mais andanças pelas ruas, mais filmes, mais respeito, mais vozes, mais comunicação e os cinco sentidos na educação brasileira? Essas são as melhores formas de se defender o pluralismo. 

O resto é censura.

 

Renata Ferraz, cofundadora do Pé na Escola

 

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