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Manifestação das garotas para o século XXI

Manifestação das garotas para o século XXI

Na última quarta-feira (1/6), estive no ato promovido contra a cultura do estupro e pela vida das mulheres em São Paulo. As mulheres na Avenida Paulista cantavam de um jeito que ainda me era desconhecido, com a potência de quem fazia aquilo pela própria dor. Dor que eu nunca senti, o que me levou a apoiar simplesmente com a minha presença calada. Silêncio que não tem a ver com omissão, mas com o reconhecimento de que o apoio na luta pode ser compartilhado, mas o protagonismo deve ser daquelas que falam pela própria voz. Em sua maioria, a voz que ecoava era de jovens garotas em idade escolar, que expressavam da melhor maneira que o debate sobre gênero não será silenciado nas ruas, nas escolas, ou em qualquer outro espaço. Que algumas questões estão postas pelo século XXI e não pela ameaçadora “ideologia de gênero”.

São essas garotas que trazem a melhor imagem para simbolizar o que é essa inquietação juvenil que insiste em mostrar que tudo está mais confuso desde junho de 2013. Para além dos vinte centavos e da manifestação desordenada de indignação com a política representativa brasileira, o legado das manifestações de 2013 foi a reconquista do espaço público como grande arena política, sobretudo pelos jovens.  Milhares de pessoas se apropriam das ruas porque questionam legitimidade do governo, estudantes se apropriam de escolas porque as políticas públicas não são dialogadas, mulheres se apropriam do próprio corpo porque… o corpo é delas e não um bem público.

Antes mesmo de ruas e avenidas, o principal espaço público ocupado pelos jovens foi e é a internet. Nela, eles são moldados num ambiente que extrapola a democracia vivenciada off-line e se habituam a serem responsáveis pela composição da narrativa de suas histórias e pela construção do próprio conhecimento. Bastam poucos cliques para que tenham acesso a documentários sobre a manifestação dos secundaristas no Chile e um guia prático para ocupação das escolas. Ou para compartilhar experiências pessoais de assédio que escancaram o machismo de cada dia, que cria uma rede de solidariedade entre mulheres, ou para ver e ouvir o novo CD da Beyoncé com pegada feminista.

Ao mesmo tempo em que a internet massifica a informação, ela singulariza as narrativas, sobretudo para os mais jovens que se habituaram à exposição e à vida pública proporcionada pelo meio digital. E quando se está a contar a própria história, fica mais difícil de aceitar inserções no texto que nos distanciam do roteiro imaginado e de admitir que os cenários em que nos encontramos são imutáveis. A mesma autonomia que serve de pilar de sustentação para democracia ganha nova dimensão com a difusão da internet, sendo que a auto-organização de diferentes movimentos é apenas um desdobramento disso.

Isso se faz ainda mais significativo no momento em que o sistema de política representativa brasileiro é questionado nas ruas. A intensificação do sentimento de falta de representatividade e de conexão com os políticos, que não respondem ou demoram a responder às demandas da população, ocorre ao mesmo tempo em que as pessoas estão hiperconectadas, interagem e se articulam de maneira instantânea.

Se eu, homem, branco, hetero, de classe média me sinto pouco representado politicamente, o que dizer dessas jovens que são menos representadas no Congresso do que as mulheres do Oriente Médio. Se não bastasse a vergonhosa sub-representação das mulheres no Legislativo (9% na Câmara e 13% no Senado), o Executivo deu importante contribuição para mostrar que elas são personae non gratae – para abusar do latim como o presidente interino – em Brasília, ao exclui-las dos ministérios, que seriam ocupados por “notáveis”. Como na canção Superhomem, cantada por Gilberto Gil, parecemos ainda viver a ilusão de que ser homem basta, que o mundo masculino tudo nos pode dar.

Com a auto-organização das mulheres em todo o mundo para superar a violência e a desigualdade de gênero temos contato com um dos pontos mais sensíveis do descolamento entre as mudanças socioculturais e o sistema político arcaico que se mostra impermeável. A partir do momento em que essa luta sensibiliza milhares de jovens mulheres fica mais claro que as mudanças de comportamento e da política são inevitáveis e inadiáveis por mais uma geração. Não é deixando de falar de gênero nas escolas, que se vai esconder a diversidade sexual e o machismo; não é afastando a mulher dos altos cargos políticos, que se diminuirá o poder feminino.

Diferente da música de Gil, não será um superhomem que nos restituirá a glória, mudando como um deus o curso da história. A mudança surgirá com essas garotas em marcha para o século XXI.

Bruno Bissoli, cofundador do Pé na Escola

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