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Formação de professores em direitos humanos no Instituto Singularidades. Diversidade cultural na escola. Combate ao bullying e ao racismo.
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Formação de professores em direitos humanos: uma aula da professora Denise no Instituto Singularidades

Formação de professores em direitos humanos: uma aula da professora Denise no Instituto Singularidades

No final do último ano letivo pude acompanhar uma aula da Professora Denise Rampazzo da Silva, no Instituto Singularidades, e decidi compartilhar essa experiência aqui com vocês porque acredito que ela diga muito sobre os caminhos para a educação política que acreditamos.

A professora Denise ministra a disciplina “Cultura brasileira e Diversidades Étnicas” para alunos do segundo semestre de Pedagogia e gentilmente aceitou meu pedido para que eu pudesse acompanhar uma aula.

No dia que estive lá, os alunos apresentariam os trabalhos finais da disciplina. A missão de cada grupo consistia em expor o levantamento e análise de diversos materiais que reuniram sobre temas específicos indicados pela professora. Os temas eram: direitos humanos, questão afro e questão indígena, e cada grupo cuidava de um dos três. Junto ao material, deveriam apresentar também uma proposta de atividade para trabalhar os temas estudados em salas de aula, especificamente na educação infantil, que é o segmento que eles estavam estudando naquele semestre.

Segundo a professora, o objetivo da atividade era permitir que cada futuro professor ali presente conhecesse,  se aprofundasse e problematizasse essas temáticas. Depois, que eles pudessem pensar concretamente como esses conteúdos podem ir pra escola. Por fim, também era objetivo que eles compartilhassem com os colegas sugestões de fontes de pesquisa sobre cada tema, já que cada grupo cuidou de uma questão diferente.

Compartilho brevemente os resultados do que assisti, tanto dos trabalhos quanto das reflexões que surgiram ao longo da apresentação dos grupos sobre questão afro e direitos humanos .

As apresentações sobre a questão afro na escola partiram de materiais que auxiliam professores e gestores na adoção de práticas promotoras da igualdade racial. Foram apresentados cadernos produzidos pelo Poder Público, além de músicas e contos. Os grupos também trouxeram normativas brasileiras que tratam dessa questão .

Ao longo da apresentação, refletiu-se sobre como o racismo pode aparecer de diversas formas na escola, inclusive na forma de omissão, quando se ignora a matriz cultural e histórica afro-brasileira nos materiais, conteúdos e especialmente nos símbolos e atividades da escola. Sobre esse ponto, foi abordado que, ao se eximir de trabalhar a diversidade na escola,  o professor não prejudica apenas a criança negra em sua autoestima e aprendizagem, mas a todas as crianças e, ao fim, a própria sociedade, pois ainda que essa escola não tenha nenhum negro ou nenhum indígena ou nenhum estrangeiro, por exemplo, o mundo fora da escola têm e é papel da educação contribuir no reconhecimento de si e do outro, do mundo em sua pluralidade.

Alguns alunos presentes relataram ter percebido ao longo da pesquisa que sabiam muito pouco ou quase nada sobre a história africana. Enquanto outros relataram momentos em que foram alvo de racismo em suas escolas, como alunos, professores ou estagiários. Esse fator da experiência de cada um, não apenas ao realizar a pesquisa, mas ao pensar sua trajetória e prática, foi muito forte nas apresentações e muito produtivo para as discussões que se colocaram. Ao final do texto falo mais sobre isso.

O grupo de direitos humanos, por sua vez, iniciou apresentando as Diretrizes Nacionais para Educação em Direitos Humanos, fundadas em compromissos internacionais assumidos pelo estado brasileiro. Também  apresentaram materiais que auxiliam professores e gestores a trabalhar as temáticas de direitos humanos na escola.

Em seguida abordaram um tema muito sensível e interessante, que são as humilhações que crianças e adultos podem sofrer na escola, muitas vezes de forma velada, mas com impacto pessoal e social. Nesse campo entra o bullying praticado entre os próprios estudantes, mas também outras questões menos faladas como, por exemplo, o tratamento dispensado aos funcionários da escola, muitas vezes referidos como “tia da cantina”, “tio do portão”, tratamento que coisifica e reduz pessoas às atividades que praticam. Foi levantada a reflexão sobre como isso representa uma humilhação aos funcionários e também sobre a influência desse processo na própria formação dos alunos, que naturalizam a prática discriminatória onde parte da escola tem nome e parte não tem.

Foi muito interessante observar, por meio das apresentações e das falas dos estudantes de pedagogia, como se deu o percurso de pesquisa. A faísca colocada pela professora, por meio de alguns materiais, os levou a uma investigação de outras referências, movidos pela curiosidade, espanto, encantamento e, principalmente, pelas próprias experiências pessoais, que na turma que acompanhei são vastas e muito diversas.

Ao final das apresentações a professora Denise os questionava sobre como aquela pesquisa mexeu com eles, com o próprio conhecimento e prática.  Os relatos em resposta ilustram o momento de descoberta pelo qual boa parte dos alunos passou: ao tomar contato com os materiais de Direitos Humanos e diversidade revelaram sentir incômodo, choque e até vergonha, reações típicas desse momento de desvelamento de questões que passavam despercebidas. Ao mesmo tempo revelaram-se entusiasmados em mudar as próprias práticas, indicando o impacto da atividade proposta pela professora.

Na conclusão da aula, ao receber questões sobre os obstáculos existentes para que essa mudança chegue nas respectivas escolas, a professora disse que não há nada que uma boa argumentação não desconstrua. Que o trabalho é árduo e longo, mas precisa ser feito. Não com militância na escola, mas com informação e empatia, afinal é papel da educação dar condições igualitárias de desenvolvimento para as pessoas.

O primeiro passo nesse sentido é cada professor desenvolver essa compreensão e essa vontade dentro de si. Aulas como a da professora Denise atuam exatamente nesse sentido, não apenas despertando os alunos para questões até então veladas, mas possibilitando a compreensão e aprofundamento da defesa de um currículo mais democrático e plural.

 

 

Mariana Vilella é uma das fundadoras do Pé na Escola, advogada formada pela USP, faz mestrado em Educação na PUC-SP

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