Pé Na Escola | Educação Política Criativa | Falando de política na escola: imaginação para fugir da polarização
21406
post-template-default,single,single-post,postid-21406,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,,select-theme-ver-2.6,wpb-js-composer js-comp-ver-4.9.2,vc_responsive
 

Falando de política na escola: imaginação para fugir da polarização

Falando de política na escola: imaginação para fugir da polarização

– Mas quem vai criar as leis?

– Será a cabra sagrada. Ela é quem cria as leis que deverão ser respeitadas por todos.

– Mas e se as pessoas não aceitarem as leis?

– Elas terão que aceitar, porque elas são sagradas.

– Por que não deixar as próprias pessoas criarem as leis?

– Porque elas vão começar a brigar e isso não terá fim.

 

Esse diálogo aconteceu numa escola de São Paulo, entre uma estudante e uma professora, na última semana.

Nós do Pé na Escola encaramos um desafio: convidar cerca de 300 crianças e adolescentes, entre 11 e 15 anos, para inventar países, com ampla liberdade, e a partir disso pensar sobre a Constituição Federal do Brasil. Para isso, preparamos um jogo com perguntas orientadoras e materiais onde os estudantes, divididos em grupos, escreviam as regras de seus países inventados. Em seguida, os grupos apresentavam suas decisões para o restante da turma, que poderia fazer perguntas e comentários. Após a atividade, os professores falaram sobre a Constituição brasileira de 1988, um resultado de negociações entre vários grupos distintos que participaram da Assembleia Constituinte, e todos conversaram sobre os desafios de se fazer um país que seja bom de se viver e a importância das regras estarem escritas numa Constituição, para que o jogo da democracia possa funcionar.

Sendo o ponto de partida as invenções dos estudantes, o resultado foi surpreendente. O que se viu foram jovens de variadas idades debatendo profundamente sobre organização social, política e econômica. Falavam de voto, governos, comunismo, capitalismo, direitos humanos, etc, com naturalidade e apropriação. A política deixou de ser abstrata e distante e tornou-se concreta – afinal era “o nosso país”.

É importante dizer que, nessa atividade, o imaginário e fictício não tem menos valor do que o plausível e real. Por meio de países de unicórnios, pinguins e web celebridades pode-se chegar a discussões políticas muito relevantes. Em tempo de polarização no debate nacional, a imaginação também ajuda a desviar dos discursos automáticos, e revela medos e desejos mais profundos e complexos. Aproveita-se o potencial criativo do jovem para construir a partir de sua linguagem, de seu mundo.

 

Em tempos de polarização no debate nacional, a imaginação também ajuda a desviar dos discursos automáticos, e revela medos e desejos mais profundos e complexos. 

 

Uma questão que chamou atenção foi como as criações percorreram a própria história da humanidade, com suas diversas soluções para a administração do poder. Não faltaram governos teocráticos e tirânicos. Tiveram também governos aristocráticos, organizações feudais e triunviratos.

Um grupo de estudantes do nono ano talvez tenha dado uma boa pista do porquê se apostou tanto em governos de poucos. Após apresentarem um país governado por um conselho de iluminados, formado pelos poucos capazes de conversar com uma entidade suprema, que seria “maior que Deus”, nem podendo ter nome, perguntamos se eles gostariam de viver naquele país. Eles responderam que não. Perguntamos por que criaram um lugar onde não gostariam de viver, e tivemos a seguinte resposta: “O tempo era curto e todo mundo discordava de muita coisa, então foi mais fácil fazer uma teocracia, porque com essa entidade que manda em tudo a gente não tem que ficar discutindo e decidindo sobre todas as coisas. Fica mais fácil”.

De fato, a democracia é uma construção sofisticada e talvez das menos intuitivas, pois pressupõe a existência de conflito e de discordância entre as pessoas. Está muito mais próxima do caos do que da ordem. Nossas diferenças são vistas como aquilo que nos humaniza, valores em si. Devem ser afirmadas, não anuladas. Isso parece dificultar nossa vida porque, para que possamos conviver e fazer escolhas coletivas, precisamos de diálogo constante, às vezes muito difícil, além de mecanismos extremamente elaborados, que possibilitem que todos tenham voz e direitos. Essa construção só pode ser feita ao longo do tempo e com a participação de muitas pessoas. Na atividade que realizamos, isso ficava claro porque os grupos apresentavam seus países à sala e, quando novas pessoas se punham a pensar sobre aquele projeto, novos questionamentos eram feitos, e os grupos se sentiam mais uma vez instados à reinvenção das regras, superando consensos anteriores. Muitos, por exemplo, criaram países auto-proclamados pacíficos, harmônicos e sem preconceitos. Quando questionados sobre o que aconteceria com quem fosse violento ou tivesse preconceito, no entanto, era comum que respondessem que essas pessoas desapareceriam, morreriam ou teriam de deixar o país. Os colegas e professores reagiam a essas decisões, e os grupos assumiam, de novo, uma posição de quem “não sabe mais”. A complexidade e a incompletude da democracia se escancarava. Quando um grupo, por exemplo, falou sobre a votação de leis pelo celular, com aprovação daquelas desejadas pela maioria, apontando essa possibilidade como um sinal de democracia, outra estudante levantou a questão: “Mas e a Lei Maria da Penha? E se os homens forem maioria e votarem contra?” Entrava em pauta a situação das minorias em países onde só as maiorias decidem.

 

Muitos, por exemplo, criaram países auto-proclamados pacíficos, harmônicos e sem preconceitos. Quando questionados sobre o que aconteceria com quem fosse violento ou tivesse preconceito, no entanto, era comum que respondessem que essas pessoas desapareceriam, morreriam ou teriam de deixar o país.

 

Em grande medida, as escolhas oscilaram entre nenhuma participação do povo e total participação do povo. Assim, também apareceram regimes com diversas possibilidades de representação direta (conselhos, voto na internet, crianças eleitoras, conflitos resolvidos na própria comunidade, etc). O meio do caminho, contudo, que é exatamente o modelo de democracia representativa que adotamos, pouco ou nada apareceu. Perguntados se seus países teriam partidos políticos, a imensa maioria dos estudantes respondeu que não. Isso pode ser reflexo de rejeição, descrédito, desgaste (o esgotamento diante de “tanta briga” era evidente), mas também de desconhecimento sobre o nosso atual sistema de representação política e sua bela história de conquistas, apesar de todas as dificuldades. Ainda, pode ser a manifestação da vontade de inventar algo diferente do que temos, o que é absolutamente esperado, legítimo e poderoso nas novas gerações. Pode ser tudo isso junto e misturado também.

Esses jovens têm, literalmente, infinitas possibilidades no horizonte e precisarão de sabedoria para fazer escolhas. A internet e as tecnologias de informação são ótimos exemplos. O controle social apareceu com destaque em muitos grupos como um item de primeira necessidade, sendo que o Estado deveria, para muitos, utilizar-se de ferramentas tecnológicas para controlar a população, em verdadeiros regimes totalitários. Não faltaram países repletos de câmeras de vigilância, pessoas com chips implantados para evitar a prática de crimes, juízes robôs e até um sistema que “deletaria” automaticamente quem praticasse atos ilegais… Por outro lado, a tecnologia também apareceu como aliada para o desenvolvimento da cidadania. Muitos países tinham como principal característica o acesso gratuito e irrestrito ao wifi, enquanto outros se utilizavam da internet para realizar consultas populares pelo celular.

 

Esses jovens têm, literalmente, infinitas possibilidades no horizonte e precisarão de sabedoria para fazer escolhas.

 

Diante de um mundo com tantas possibilidades e desafios, educar para a política em sentido amplo, ou seja, para a capacidade de fazer boas escolhas coletivas, é urgente. Partir dos desejos e das referências dos estudantes, permitindo que se encontrem, conversem e sonhem, por sua vez, é uma forma criativa e respeitosa de fazer isso. Que tal convidar seus alunos para inventar países? É uma proposta simples, mas que demanda abertura do professor para acolher uma enorme complexidade de criações imprevisíveis. Não é preciso ansiedade, nem todas as perguntas precisam de respostas. A serenidade do educador diante do imprevisto e da dúvida é em si uma bela lição de democracia.

Por Pé na Escola


O Pé na Escola desenvolve experiências e conteúdos para uma Educação Política Criativa. Entra em contato com a gente!

3 Comentários

Deixe um comentário