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Estereótipos de gênero no ensino superior e no mercado de trabalho

Estereótipos de gênero no ensino superior e no mercado de trabalho

*Por Isabelle Glezer

De acordo com o Censo da Educação Superior 2013, mulheres compõem 60% dos concluintes de cursos de graduação no Brasil.  Elas, no entanto, compõem 76,3% das formandas na área de educação e 76,8% na área de saúde e bem-estar social, mas apenas 30,2% das engenheiras e 32,5% das concluintes dos cursos de ciências, matemática e computação.

Estes números díspares são especialmente relevantes considerando a tão discutida diferença salarial entre homens e mulheres, muitas vezes justificada com base em fatores como a licença-maternidade ou a priorização das responsabilidades familiares em detrimento do crescimento profissional, fatores que já são suficientes para preencher bibliotecas sobre as questões de gênero envolvidas na determinação do papel do homem e da mulher na família e no mercado de trabalho.


E se as mulheres estiverem “escolhendo” carreiras com menor retorno financeiro?


Mas e se além da licença-maternidade e da priorização da família (que, inclusive, costumam aparecer muito depois da escolha de carreira e do estabelecimento profissional), as mulheres também estiverem “escolhendo” carreiras com menor retorno financeiro? Entre aspas porque questiona-se justamente a liberdade desta escolha, permeada por estereótipos de gênero desde a primeira infância: “meninas brincam de casinha, boneca e Barbie”. “Meninos brincam com legos, carrinhos, aviõezinhos, trenzinhos”. “Meninas são melhores em português e redação”. “Meninos são melhores em matemática”.

Basta retornar aos números para ver que as profissões em que meninas são maioria são aquelas tradicionalmente femininas (pedagogia, enfermagem, fisioterapia, assistência social e nutrição – que envolvem cuidados), e em que são minoria, tradicionalmente masculinas (engenharia, tecnologia da informação, computação, física, química, matemática).


As mulheres são sistematicamente excluídas de um mercado de trabalho com alta projeção de crescimento e retorno financeiro


Se, por um lado, cabe refletir sobre a potencial misoginia da desvalorização de profissões tradicionalmente femininas no mercado de trabalho (especialmente na área de educação) e o preconceito que homens sofrem em profissões tradicionalmente femininas, também é fato que as mulheres são sistematicamente excluídas de um mercado de trabalho com alta projeção de crescimento e retorno financeiro, notadamente na engenharia e nas ciências da computação.

A disparidade de mulheres no mercado STEM (sigla em inglês utilizada no meio acadêmico para ciências, tecnologia, engenharia e matemática) são extensamente estudadas. Incontáveis artigos e pesquisas dedicam-se a compreender e resolver este problema, sendo frequentemente mencionadas como causas:

  • Escassez de profissionais formadas: objetiva e estatisticamente, menos mulheres possuem formação técnica necessária para atuação no mercado STEM;
  • Estereótipos de gênero: faculdades e ambientes de trabalho STEM são percebidos como masculinos, afastando prospectivas alunas e profissionais que não querem ser percebidas como masculinas ou não-tradicionalmente femininas;
  • Discriminação: por serem minoria tanto durante os estudos como na vida profissional, mulheres são mais frequentemente discriminadas no mercado de trabalho, tanto em contratações quanto em promoções;
  • Ausência de role models: por ser uma área predominantemente masculina, assim são seus modelos de sucesso. Há nítida escassez de mulheres bem-sucedidas nesta área nas quais meninas podem se inspirar, tanto na vida real quanto retratadas na mídia.

Todas estas causas devem ser compreendidas em sua complexidade e interdependência, sendo dever de todos refletir criticamente e iniciar discussões sobre as questões de gênero que influenciam diretamente as escolhas acadêmicas e profissionais de jovens em idade escolar.

Desta forma, poderemos contribuir para a promoção da igualdade de gênero, e para a erradicação dos empecilhos colocados entre jovens e as carreiras profissionais que buscarem conforme seus talentos e afinidades, sem que tenham que se preocupar com o que é “coisa de menina” e o que não é.

Isabelle Glezer é advogada formada pela Direito GV, mestre em direito pela Universidade de Columbia com especialização na área de Gênero e Sexualidade.

1 Comentário
  • Eliana Prager Ziganovsky

    21 de setembro de 2016 Responder

    Genial!!!!!

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