Pé Na Escola | Educação Política Criativa | Baseado em fatos reais: 6 minicontos de educação política criativa
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Baseado em fatos reais: 6 minicontos de educação política criativa

Baseado em fatos reais: 6 minicontos de educação política criativa

O jogo Criando um País foi concebido pelo Pé na Escola com o objetivo de falar sobre a nossa Constituição e sobre as dores e delícias de criar, coletivamente, um projeto de país. Isso de um jeito lúdico, a partir da linguagem e do universo próprio dos participantes. Assim, o jogo já foi jogado por mais de 400 crianças, adolescentes e adultos, dentro e fora de escolas. Funciona assim: em grupos de 5 a 7 pessoas, os jogadores recebem perguntas orientadoras e, a partir delas, criam seu próprio país, decidindo desde os habitantes e o território até o sistema de governo, se haverá eleições etc.

Uma das coisas mais legais do jogo, é que ele dá espaço para muita imaginação e ótimas histórias! Sendo que cada uma é um prato cheio para debates profundos. Afinal, o pensamento começa no espanto! Por isso, o mais importante do jogo não é acertar ou vencer… toda invenção é uma oportunidade para aprender e questionar sobre política, democracia, justiça, liberdade, ética de um jeito leve, simbólico e ativo.

Para dar um gostinho, apresentamos a seguir algumas histórias do jogo Criando um País em 6 minicontos baseados em fatos reais 🙂

 

* Todos os nomes a seguir são fictícios, preservando as identidades dos participantes.

 

 

O dilema de Eduardo

Um grupo retira uma ficha com a pergunta: “Quem habita o seu país?”

Rapidinho, Eduardo, de 11 anos, desenha na cartolina uns monstrinhos molengas com olhos e bocas.

– Eles!

– NÃO! – Respondem os colegas, da mesma idade, em coro.

– Vai ter mulher, homem, criança…

Eduardo desenha um homem com uma cabeça triangular e um olho no meio.

– Ele!

– Para Edu! A gente tem que fazer um país, não outro planeta! – seus colegas não estão convencidos e querem um país com pessoas reais.

– É, nada a ver ter ET, Edu!!

Eduardo corrige os amigos:

– Não é ET, é um illuminati!

Íris, com a Mafalda estampada na camiseta, bate firme na mesa com os punhos fechados:

– Mas o que é um illuminati, Eduardo?

Edu decide mudar a estratégia:

– E dinossauros? Dinossauros já existiram!

– Nãoooo! – a resposta é em coro.

Edu cruza os braços, joga o corpo para trás, está com os olhinhos marejados.

– Eu só queria que nosso país fosse pacífico… – resmunga.

Raul põe a mão nas costas do amigo:

– Mas o nosso país vai ser pacífico, cara…

Não adianta. Eduardo segue duvidando.

Íris sugere:

– Já sei! O nosso país se separou da Pangeia e os nossos humanos evoluíram de um jeito diferente, são 100% pacíficos.

A Professora resolve intervir:

– Mas num país 100% pacífico todos concordam com todos? Todos pensam igual? Não dá pra pensar em humanos diferentes habitando um mesmo país?

Eduardo suspira descrente:

– É, só se esses humanos evoluíram para robôs…

 

 


Democraticamente anti-democráticos

Um grupo de sete adolescentes discute sobre que forma de governo terá seu país:

“República ou Monarquia?”

Uns queriam uma, outros queriam outra.

– Já sei! Vamos votar!!! – sugeriu Jéssica, de 14 anos.

Por quatro votos a três, ganhou a Monarquia. A próxima ficha perguntava se “Haverá eleições?”

O “não” foi unânime.

– Porque se tiver eleição todo mundo vai ficar brigando – argumentou Jonathan.

Foi assim que, democraticamente, sete estudantes criaram um reino onde ninguém podia votar.

 

 

Todo mundo é pacífico, menos quem não é

Um grupo apresentava seu país para a turma:

– O nosso país vai ser 100% pacífico, ninguém vai ter preconceito. – disse Laura, de 13 anos, com orgulho.

Francisco, de outro grupo, questionou:

– E o que vai acontecer quando alguém tiver preconceito?

Laura respondeu:

– Não vai existir preconceito!

Francisco insistiu:

– Mas e se alguém tiver preconceito?

Laura cedeu:

– Vai perder um dedo, depois outro, depois o pé, a perna.

Pedro discordou de Laura:

– Não! Vai ter que sair do país, só. Vai ser convidado…

Mas muitos estudantes continuavam insatisfeitos:

– Isso não é justo!!! – bradavam alguns.

O grupo que apresentava o país concordou com as críticas e disse que precisava de mais tempo para pensar naquele impasse…

A professora tranquilizou a todos:

– Tem coisas que a gente só percebe quando mais gente dá opinião mesmo, o país nunca fica pronto, isso é normal…

 

 


O caminho mais fácil

Um grupo do nono ano apresenta seu país para a classe.

Flora:

– As leis vão ser feitas por um conselho de anciãos iluminados, que conversam com uma entidade suprema.

Antônio:

– Eles conversam com Deus?

Flora:

– Não, vai ser maior do que Deus, porque vai abarcar todos os deuses.

Antônio:

– E quem é ateu?

Anna, do grupo de Flora:

– Então, vai ter essa parte do território que vai ser separada, onde todo mundo que não acredita na entidade vai viver, numa anarquia.

A professora, para o grupo de Flora e Anna:

– Vocês gostariam de viver nesse país? De que lado escolheriam viver?

Alguns olhares em volta, silêncios e cochichos depois, o grupo foi unânime em dizer que não gostariam de viver naquele país.

A professora:

– Mas por que vocês criaram um país onde não gostariam de viver?

Lucas respondeu pensando:

– O tempo era muito curto e a gente não conseguia chegar num acordo. Aí eu acho que foi mais fácil criar essa entidade. Quando a gente inventou isso, não precisou perder mais tanto tempo discutindo e decidindo sobre todas as coisas.

 

 


Coração partido

Um dos países tinha o território no formato de coração. Um lado cinza, outro vermelho, cortado no meio por um rio.

Na explicação de Enzo:

– Só desse lado cinza as pessoas trabalham, todo mundo é escravo. Eles vivem na pobreza e em guerra fazendo coisas pro outro lado. Então, desse outro lado, vermelho, as pessoas só se divertem. Do lado vermelho, as pessoas não sabem o que acontece do lado cinza, porque não aparece na TV e elas estão sempre ocupadas curtindo a vida.

A professora pergunta:

– E vocês acham que esse país é uma democracia?

Rafael logo aponta pro lado vermelho do cartaz:

– Desse lado é, sim!

 

 


Menos a Lei Maria da Penha

Mariana, do oitavo ano, ao final da apresentação de seu país:

– … e todas as pessoas vão votar nas leis por um site que vai se chamar decisoespoliticas.com . Todas as leis têm que ser autorizadas pelo povo.

A classe toda parecia impressionada com o país apresentado pelo grupo de Mariana. Até que ela mesma olhou para cima, respirou fundo e completou:

– Menos a lei Maria da Penha, porque a Lei Maria da Penha vai ter homem que não vai querer.

 

___

 

Já pensou como esse jogo dá pano pra manga de um professor atento? Pra saber mais do jogo, a gente já falou sobre ele no blog, é só clicar aqui.

A boa notícia é que dia 19 de agosto, sexta-feira, às 8h, estaremos na EE. Caetano de Campos, na Praça Roosevelt, apresentando uma versão especial do jogo, como parte da programação da Virada Educação!

E o evento será aberto ao público \o/

A ideia será refletir sobre a importância de criar um projeto de educação a partir de um projeto de Brasil. Para mais detalhes: http://viradaeducacao.me/experiencia/2016-criando-um-pais

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