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Conheça as histórias de Arthur e Gisele, dois alunos do cursinho popular da Fundação Getúlio Vargas aprovados no vestibular da instituição
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Do cursinho popular da FGV para a lista de aprovados

Do cursinho popular da FGV para a lista de aprovados

Conheça as histórias de Arthur e Gisele, dois alunos do cursinho popular da Fundação Getúlio Vargas aprovados no vestibular da instituição

No dia 31 de outubro de 2016, às vésperas do ENEM, o Pé na Escola realizou no cursinho popular da FGV uma simulação do julgamento do Supremo Tribunal Federal da ADPF 186, que decidiu sobre a constitucionalidade da política de cotas étnico-raciais para a seleção de estudantes na UNB. Para saber mais sobre como foi essa atividade, clique aqui e leia esse outro texto em nosso blog.

O cursinho da FGV é uma organização estudantil que foi criada por 4 alunos da FGV em 2013 com foco na aprovação no vestibular de Administração Pública da instituição, e que hoje conta com uma equipe de mais de 100 colaboradores, entre membros administrativos, professores e monitores, e, em 2017, já tem 180 alunos nas turmas preparatórias para 3 cursos da FGV-SP: Administração Pública, Direito e Administração de Empresas. O objetivo do cursinho é tornar o ambiente da Fundação Getúlio Vargas mais diversificado e, ao mesmo tempo, contribuir para a educação brasileira. Para isso, o cursinho FGV oferece um curso pré-vestibular totalmente gratuito para alunos de baixa renda que sonham em estudar em uma instituição de ensino superior de excelência.

Mais de 500 alunos já passaram pelo cursinho da FGV, sendo que 44 deles foram aprovados na Fundação Getúlio Vargas, e muitos outros em outras instituições, como UNICAMP, USP, UNESP. O Pé na Escola conversou com dois dos aprovados na GV: a Gisele e o Arthur.

Veja a seguir o que esses jovens nos contaram sobre suas trajetórias escolares, ideias e experiências no cursinho da FGV e na atividade promovida pelo Pé na Escola.

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GISELE CAMPOS BATISTA, aprovada em Administração Pública na FGV e em Ciência Sociais e Humanidades na UFABC.

 

Cursinho FGV - Gisele

Eu adorei essa atividade [do Pé na Escola], por mais que já tivesse lido e debatido sobre esse assunto, nunca tinha sido dessa perspectiva de pensar se é constitucional e embasar os argumento mais na Constituição e na Declaração dos Direitos Humanos.

 

 

 

 

 

Pé na Escola: Antes de tudo, parabéns pelas aprovações nos vestibulares, Gisele!!! Você pode nos dizer como se preparou?

Gisele: Me preparei para o vestibular frequentando o cursinho da FGV aos sábados e estudando em casa durante a semana, e sempre indo nas atividades extras que o cursinho da FGV organizava.


Pé na Escola: Você participou da simulação do julgamento do STF que decidiu sobre a constitucionalidade das cotas étnico-raciais, certo? O que você achou da atividade promovida pelo Pé na Escola?

Gisele: Certo. Eu adorei essa atividade, por mais que já tivesse lido e debatido sobre esse assunto, nunca tinha sido dessa perspectiva de pensar se é constitucional e embasar os argumento mais na Constituição e na Declaração dos Direitos Humanos.


Pé na Escola: Você acha que atividades participativas como essa ajudam na hora do vestibular? Por que?

Gisele: Ajudam muuuuuito. Eu nunca tinha tido um contato com a Declaração dos Direitos Humanos tão próxima de ler artigo por artigo, então contribuiu muito pra mim nisso. E, também, eu não tinha lido todos os artigos que usamos da Constituição, e são dois documentos muito importantes para qualquer discussão que aborde o elemento humano. Isso contribui pro desenvolvimento da redação, na ampliação do senso crítico e no raciocínio em questões de humanas. Além disso, o debate ajuda na compreensão dos dois lado, e como um mesmo argumento pode ser usado contra e a favor em um mesmo assunto.

 

Pé na Escola: Conte um pouco sobre sua trajetória escolar. O que você mudaria na educação brasileira?

Gisele: Eu sempre estudei em escola pública em São Paulo, apesar de morar em Guarulhos, mas isso porque as escolas em São Paulo são melhores. Fiz o Ensino Médio integrado ao técnico na ETEC Parque da Juventude, no Carandiru. Faço parte da geração da minha família que está tendo um acesso melhor a educação, e em consequência disso chega no Ensino Superior. Na Educação Brasileira eu mudaria o método aplicado, testaria algo mais para o lado do Paulo Freire, para ver se se encaixa melhor no contexto do Brasil e em suas regiões. Eu também mudaria o reconhecimento dos professores, para incentivá-los mais, e assim ter menos aulas vagas nas escolas públicas. Além disso, colocaria projetos culturais em todas as escolas, mas de acordo com o perfil dos alunos, pois acredito que a cultura motive eles a estudar e a ir para a escola mais motivados, e não só pra passar de ano.

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ARTHUR HENRIQUE DOS SANTOS, aprovado em Administração Pública na FGV, em Gestão de Políticas Públicas na USP, e em outras universidades públicas e privadas de excelência.

 

Cursinho FGV - Arthur

 

“Enquanto eu era um sujeito passivo, apenas recebendo informações, eu não me destacava tanto. Mas quando eu pude de fato me apropriar de conceitos, me aprofundar, e passei a ser ativo dentro da escola, ou seja, quando eu tive contato com uma educação mais participativa, mais plural e inclusiva, que discutia direitos humanos, foi que a educação passou a ter um significado muito importante, substancial, na minha vida.”

 

 

 

Pé na Escola: Antes de tudo, parabéns pelas aprovações nos vestibulares, Arthur!!! Você pode nos dizer como se preparou? E como escolheu o curso?

Arthur: Então, o meu ano de vestibular foi um pouquinho complicado. Eu estudava numa escola pública na Vila Mariana, numa escola com aulas bem medianas, e paralelamente a isso eu cursava o último módulo de um curso técnico na ETEC Cepam, onde eu cursava “gestão de políticas públicas”. Isso me encaminhou para o campo de políticas públicas, e eu já sentia necessidade de me matricular num cursinho pré-vestibular, mas não tinha dinheiro para fazer um cursinho particular tradicional, mesmo com as bolsas que eu consegui em diversos cursinhos, por isso optei pelo cursinho da FGV. Assim que fui aprovado no processo seletivo, eu abracei essa ideia e me apaixonei pelo projeto. Eu estudei bastante no cursinho, fazia muitas perguntas para os monitores, era o chato das perguntas, e estudei muito em casa também, lia muitos textos, corria atrás de bibliografia, e fazia muitos exercícios. Quando me formei no ensino técnico, intensifiquei ainda mais esses estudos. Então eu ia para a escola de manhã, estudava muitas vezes no Centro Cultural São Paulo, porque lá é um lugar com pouca distração, onde eu conseguia focar, e ia para o cursinho da FGV. Foi um ano bem pesado, mas que bom que obtive bons resultados!

Pé na Escola: Você participou da simulação do julgamento do STF que decidiu sobre a constitucionalidade das cotas étnico-raciais, certo? O que você achou da atividade do Pé na Escola?

Arthur: Sim! Eu participei! Foi uma experiência super incrível! Aquele momento que a gente teve pra estudar, se aprofundar e discutir em grupos menores foi bem proveitoso, porque eu consigo materializar muito melhor os meus pensamentos e chegar a conclusões melhores trabalhando em grupo e externalizando as ideias.

Pé na Escola: Você acha que atividades participativas como essa ajudam na hora do vestibular? Por quê?

Arthur: Ajudam sim. Eu acho que essas instituições focadas em vestibular têm pouca discussão sobre atividades participativas ou mais interativas. Então, quando a gente fala de vestibular nesses espaços, é sempre aquela coisa de ler textos e fazer exercícios, uma coisa bem máquina em que a gente acaba se sentindo muito distante dos conteúdos que a gente trabalha. Mas quando a gente traz uma discussão importantíssima como a da constitucionalidade das cotas étnico-raciais para a pauta, a gente consegue dialogar, para além de ler e fazer exercícios sobre isso, e eu acho que a gente consegue aprender melhor. Esse pra mim é um exemplo porque, além dessa atividade do Pé na Escola, eu percebo que outras coisas que eu discutia fora da sala de aula também me ajudaram muito na hora de fazer o vestibular. Por exemplo eu fui super bem na redação do ENEM e fui bem na redação da FUVEST também, e eu acredito que foram vivências de diálogo fora da sala de aula que eu tive no meu processo formativo que me ajudaram nisso. Principalmente na redação, mas também em questões de humanas em geral. Eu tenho uma mania de grifar e dialogar com o texto na hora da prova, e eu acho que saber dialogar, mesmo que comigo mesmo na hora da prova, me ajudou. No cursinho da FGV, além da atividade do Pé na Escola, tivemos outras atividades participativas, onde a gente podia de fato discutir e se apropriar das coisas que estávamos estudando. Por isso eu acho que esse tipo de atividade é fundamental, não só pra gente adquirir um conhecimento para fazer as provas, mas também para estar preparado para discussões em outros espaços.

Pé na Escola: Você pode contar pra gente um pouco sobre sua trajetória escolar?

Arthur: No Ensino Fundamental I, eu estudava numa escola pública na região Sul de São Paulo, capital, em Cidade Ademar. Não era uma boa escola, então eu acho que carreguei muitas lacunas desse período do meu processo formativo e precisei correr muito atrás. Quando eu fui pro Fundamental II, eu comecei a buscar escolas de outras regiões da cidade. Então, mesmo morando na Zona Sul, comecei a estudar na Vila Mariana. Isso porque eu e minha família, nessa época, percebemos algumas disparidades. Escolas públicas de regiões mais centrais e bairros mais ricos da cidade, apesar de terem vários problemas, são melhores, e esse, aliás, foi um fenômeno que me levou a querer estudar administração pública.

Por isso, no Fundamental II, eu estudei numa escola um pouco melhor do que antes e, quando estava no nono ano, prestei a prova da ETEC para cursar administração integrada com o Ensino Médio. Eu passei na segunda chamada, mas acabou não rolando porque eu comecei a pensar que não era o que eu queria fazer. Esse processo todo me deixou bem triste. Acabei indo para outra escola na Vila Mariana.

Nessa escola, no Ensino Médio, eu comecei a, de fato, ter uma formação crítica. Lá eu tive um professor de sociologia muito bom que me ajudou muito no meu processo formativo, de opinião, de conhecimento dos direitos humanos. Foi a primeira vez que aqueles termos foram apresentados para mim. Ele realizava muitas atividades participativas na aula dele, em que a gente podia realmente se apropriar das ideias das aulas. Foi esse mesmo professor que me apresentou o curso técnico de gestão de políticas públicas, em que eu ingressei no ano de 2015, e que de fato era um curso técnico que eu queria fazer e que deu muito certo para mim – tanto que eu estou me encaminhando nessa área e tenho isso no meu projeto de carreira.

A minha experiência na ETEC Cepam foi muito importante, e aconteceu ao mesmo tempo em que tive a oportunidade de me empoderar enquanto negro, lgbt, e aquele foi um espaço importante. Lá eu criei um coletivo de gênero, discuti questões étnico-raciais e educação, tive a oportunidade de participar de um projeto em parceria com a USP-Leste, ganhei uma viagem como destaque de melhor aluno e fiz várias coisas que foram fomentando o meu interesse pela área de políticas públicas. Por isso, eu acredito que a ETEC Cepam me ajudou a potencializar minha trajetória acadêmica. Já no terceiro ano do ensino médio, enquanto eu concluía o curso técnico e fazia o cursinho, eu também comecei a me envolver mais com causas sociais. Uma coisa foi puxando a outra.

Pé na Escola: E o que você mudaria na educação brasileira?

Arthur: O que eu mudaria na educação brasileira? Nossa, essa pergunta é muito complicada! Mas acho que eu faria da educação brasileira um espaço mais inclusivo e mais plural, para que de fato as pessoas possam enxergar a escola como uma coisa sua, um espaço de transmissão de conhecimento, mas não um conhecimento estático, e sim um conhecimento produzido coletivamente. Eu sou muito dessa filosofia, de que o conhecimento se constitui de maneira participativa, de maneira ativa. E eu percebo isso muito também na minha trajetória acadêmica. Enquanto eu era um sujeito passivo, apenas recebendo informações, eu não me destacava tanto. Mas quando eu pude de fato me apropriar de conceitos, me aprofundar, e passei a ser ativo dentro da escola – e da minha vida também, pois esses foram movimentos simultâneos e intrínsecos -, ou seja, quando eu tive contato com uma educação mais participativa, mais plural e inclusiva, que discutia direitos humanos, foi que a educação passou a ter um significado muito importante, substancial, na minha vida. Por isso eu acredito que se a gente tiver escolas que discutam questões de direitos humanos e que respeitem essas questões, a gente consegue criar um espaço onde as pessoas podem se apropriar dos seus direitos, de suas trajetórias de vida. Eu acho que as pessoas já estando incluídas dentro de uma lógica que respeite direitos humanos, são mais sensíveis a reivindicar outras coisas, como infraestrutura, por exemplo, e tudo o que é obviamente necessário para a gente chegar em algum lugar na educação.

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